ComendoPipoca #01 – De Hawkins até a Rússia

A tão esperada 3ª temporada de Stranger Things chegou recentemente na Netflix e ao que tudo indica bateu recorde de visualização e audiência na plataforma, foram cerca de 40 milhões de perfis conectados e assistindo a série, nos 4 primeiros dias após o lançamento. A 3ª temporada veio com mais ação, mais conflitos pessoais, mais referência aos anos 80 e até ligações históricas e físicas, que valem a pena ressaltar e falar sobre!

Início X Continuação

Bom, então vamos lá! Como eu disse essa temporada veio com muito mais ação do que as duas anteriores, os conflitos me pareceram mais intensos e a corrida deles contra o tempo ficou muito visível nessa temporada, com a velocidade dos acontecimentos em cada episódio. Apesar dessa velocidade de roteiro, a série não perdeu a conexão com as duas primeiras temporadas e seguiu de forma bem conexa com os acontecimentos estranhos em torno da cidade de Hawkins (foco no mundo sobrenatural bem dividido com o foco no desenvolvimento dos personagens), trazendo aos poucos o universo russo, para fazer parte da história.

A parte de fotografia e câmera tá sensacional, e eu achei que fez muita diferença nessa temporada, te coloca mais dentro de determinadas cenas. Por exemplo, a cena que a Robin e o Steve são capturados pelos russos, estão presos na cadeira e a cadeira cai, a câmera faz o mesmo giro como se tivesse caindo também e você passa a enxergar os personagens no chão como se estivesse deitado ao lado deles. Toda a visão das lojas/marcas atuais, só que nos anos 80 dentro do shopping, ficaram muito realistas, muito bem adaptadas como se sim, você estivesse naquela época.

A temporada acabou dividindo o elenco em 3 grupos, que buscando por pontos separados chegam finalmente no objetivo comum que é acabar com o devorador de mentes e fechar a fenda. Tudo corre paralelamente e se encontra perfeitamente nos últimos episódios. Meu grupo preferido sem dúvida é o do quarteto Steven, Robin, Erica e Dustin, a interação e a dinâmica deles ficou muito boa, aliás o Dustin, interpretado brilhantemente pelo Gaten Matarazzo, é na minha opinião o melhor personagem da série.

Crescimento dos personagens x Conflitos pessoais

Nessa onda de crescimento, a temporada focou muito nesse desenvolvimento pessoal de cada personagem. A própria Eleven se ver descobrindo cada vez mais seu próprio universo e o amor, apesar dos conflitos entre ela e o Mike, o relacionamento dos dois acaba sendo a base para o desenvolvimento não só deles, mas dos personagens ao redor. O Dustin, o Will, eles acabam se vendo ‘abandonado’ pelos amigos por causa das namoradas, eles enfrentam no grupo fechado deles, vamos dizer assim, interferências pela primeira vez e não sabem muito bem lidar com isso a princípio. Do mesmo jeito que a Eleven precisa se ver sozinha, precisa se descobrir, o Dustin e principalmente o Will, ainda sentem a necessidade de estar em grupo, de ser o que eles eram, de não ‘crescer’ vamos dizer assim.

O Billy tem um destaque muito grande nessa temporada, não só por ser possuído pelo devorador de mentes, mas pelo desdobramento no final, quando ele se sacrifica para salvar todo mundo. As memórias dele, que a Eleven conseguiu acessar, mostravam ele como um bom garoto, como alguém do bem e é assim que ele termina, como quem ele de fato sempre foi. Aliás toda essa trama do Billy possuído, agindo de forma estranha tem como referência o longa Os Invasores de Corpos, de 78. A semelhança vai desde a forma que ele e as demais pessoas são possuídos (que se assemelha também a Allien o Oitavo Passageiro), assim como a forma que todos eles passam a se comportar depois disso.

Machismo x Sexualidade

Outro personagem que fez diferença foi a Robin, que chegou pra levantar a questão da sexualidade na série. Acho que assim como eu, todo mundo passou a temporada toda torcendo pra que ela e o Steve ficassem juntos, até ela finalmente falar que gosta de meninas. Cena linda e sincera inclusive, da conversa dela e do Steve, sobre o assunto, reforçando ainda mais a verdadeira amizade entre eles. Será que teremos uma namorada pra Robin na próxima temporada? Eu espero que sim e torço também pra que o Steve encontre alguém legal.

Com relação a sexualidade o maior questionamento eu acho que foi com relação ao Will, quando o Mike diz pra ele que ele não gosta de garotas. Eu sinceramente, fiquei na dúvida a princípio, mas eu acho que o que o Mike quis dizer é que o Will ainda não amadureceu, ainda é meia criança e não está preocupado ou interessados em relacionamentos, nas meninas. Certamente o Mike fará novos amigos na nova cidade, será que talvez aparece ai um relacionamento amoroso pra ele?

Na pegada de casal, Nancy e Jonanthan enfrentam problemas da vida adulta, da responsabilidade. Os dois estão trabalhando e precisam, cada um da sua maneira, lidar com esse cotidiano e é ai que a série traz outra questão importantíssima: o machismo. A Nancy tenta o tempo todo mostrar que ela tem potencial para ser jornalista e é motivo de chacota pros demais caras que trabalham no jornal, ela é inferiorizada o tempo todo, eles não dão espaço por ela além de ser estagiária, ser mulher.

E em contraste a isso a temporada trouxe a força das personagens femininas como carro chefe em muitas decisões diante das situações enfrentadas por eles: a amizade empoderada da Max com a Eleven, a Eleven sendo sempre a esperança dos seus amigos, a Erica sendo inteligente e decidida, a Nancy batendo o pé e insistindo que é capaz e até a Suzie, que foi quem ‘salvou’ eles, quando eles precisavam do código.

Referências Física x Fatos históricos

Essa temporada foi uma pequena aula de história e de física, tudo bem sutil e de forma básica, mas que deu pra entender em que período da história real, por exemplo, a série está inserida. A atuação de cientistas e militares nos leva ao cenário do conflito entre russos e americanos, trazendo a tona vestígios da Guerra Fria. Eles pegam então contextos reais, que de fato aconteceram e misturam ali com a ficção do mundo invertido. A corrida por avanços das duas potências da época na vida real, parece fazer na série, os soviéticos experimentarem mais para darem supostamente um passo a frente do inimigo e ter mais poder, chegando ai as instalações secretas sob o shopping em Hawking, as experiências secretas e a tal abertura da fenda. Eu até acho que se Chernobyl da HBO tivesse sido feita pela Netflix, dava pra criar um crossover entre ela, Dark e Stranger Things porque todas elas circulam dentro dos mesmos assuntos.

Outra coisa que vale destacar, é a aparição da constante de Planck, quando Dustin e a Suzie precisam do código pra dar continuidade ao plano junto a Joyce e ao Hooper. Esse número, essa sequência tem a ver com radiação e energia, que são dois conceitos presentes na série. Indo mais fundo um pouco, a constante foi proposta por Max Plank em 1900 e foi dai que começou todo o estudo da física quântica e por curiosidade esse número hoje não é o mesmo que a Suzie falou pro Dustin na série, ele já foi atualizado por causa das novas tecnologias que deixaram ele mais preciso, do que era, em 2017. O número que ela fala pra ele é o de 2017, quando a temporada foi gravada.

Referências dos anos 80

Ainda temos Steven Spielberg como forte referência e claramente, mais do que nas outras temporadas, a representatividade forte na cultura pop dos anos 80. Figurino, cenários, cores, tudo foi feito com muita autenticidade e agregou demais na temporada. A trilha sonora é muito oitentista também, trazendo artistas que eram destaques naquela época. A gente tem o clássico De volta Para o futuro sendo exibido no cinema de Hawkins, a gente tem a latinha da coca-Cola original da época, tem os quadrinhos representativos da Mulher Maravilha que a Max indica pra Eleven ler e podemos esbarrar até em Despertar dos Mortos, produção também da década de 80 onde os sobreviventes após um ataque se escondem em um shopping. Aliás, eu não seu vocês mas aquela cena do monstro pelos corredores do hospital atrás da Nancy e do Jonathan, me lembrou muito Jurassic Park (pela forma do monstro se locomover) e  Halloween 2 (que tem uma cena fantástica e bem castrófica de perseguição no hospital). Entre todas as referências eu diria que a mais marcante foi sem dúvida a protagonizada por Dustin e Suzie, cantando a trilha sonora de Uma História Sem Fim, de 1984.

Final curioso

A temporada chega ao fim com a partida do Will e família, para outra cidade, a mudança realmente será um dos conflitos pessoais da próxima temporada. Entre esses desfechos pessoais a gente viu e se emocionou bastante também, eu particularmente chorei muito), com a carta do Hooper pra Eleven, ao meu ver foi a maior prova de que ele de fato estava pronto para ser pai dela, uma pena ele não estar presente quando tudo aparentemente estava resolvido e a fenda para o mundo invertido finalmente fechada. O que não significa que ele esteja morto certo? A cena final pós-créditos corta pra Rússia onde supostamente um americano está preso em uma base russa, será que esse tal americano seria o Hooper? Eu vou apostar que sim e vou esperar também que a próxima temporada seja a última. Stranger Things é boa demais e tem seu limite, a série podia ter acabado perfeitamente na terceira temporada se não fosse a cena na Rússia, então sem mais delongas eu espero que eles encerrem de forma grandiosa na quarta temporada, tão grandiosa quanto foi essa terceira!

REFERENCIAS CINEMATOGRÁFICAS: 

Star Wars: Uma Nova Esperança (1977)
Invasores de Corpos (1978)
Alien – O Oitavo Passageiro (1979)
O Iluminado (1980)
Indiana Jones (1981)
O Enigma de Outro Mundo (1982)
Picardias Estudantis (1982)
Enigma de Outro Mundo (1983)
Star Wars: Retorno de Jedi (1983)
Christine, o carro assassino (1983)
Tudo por uma Esmeralda (1984)
O Exterminador do Futuro (1984)
Amanhecer Violento (1984)
Karate Kid (1984)
A História sem Fim (1984)
Dia dos Mortos (1985)
A Coisa (1985)
De Volta para o Futuro (1985)
Conta Comigo (1986)
A Mosca (1986)
A Bolha Assassina (1988)
Duro de Matar (1988)
Uma Noite Alucinante (1989)
Jurassic Park (1993)
Halloween 2 (2009)

*Na cena da locadora onde Robin e Steve procuram um emprego, existem inúmeros cartazes de filmes marcantes na década de 80, caixas de VHS, acho que vale o destaque. São eles:

Clube dos Cafajestes (1978)
Mad Max (1979)
O panaca (1979)
Alone in the Dark (1982)
Uma Mistura Especial (1982)
O Médico Erótico (1983)
Scarface (1983)
Trocando as Bolas (1983)
Vidas sem rumo (1983)
Mr. Mom: Dona de casa por acaso (1983)
Chamas da vingança (1984)
Uma escola muito especial, para garotas (1984)
Gatinhas e Gatões (1986)