ComendoPipoca #04 – Os erros e acertos de 13 Reasons Why

13 Reasons Why chegou com a sua terceira temporada recentemente e tem divido bastante as opiniões do público: será mesmo que a série tinha necessidade de continuação após primeira temporada? O impacto causado pelo suicídio de Hannah Baker, não foi suficiente? Então vamos lá, vamos falar da necessária e arrastada jornada de uma das séries mais polêmicas da Netflix.

Pra quem ainda não assistiu todas as temporadas já deixo avisado que provavelmente teremos spoiler ao longo dessa narrativa. É difícil relacionar personagens, falar sobre a trajetória deles sem aprofundar em alguns detalhes então, se ainda não assistiu tudo, faça isso primeiro ok?

O que aprendemos com Hannah Baker

Quando a série foi ao ar lá em 2017, trazendo a jornada conturbada de Hannah Baker, 13 Reasons Why inicialmente parecia ter caído no gosto do público apesar de algumas críticas negativas. A Netflix teve que encarrar a responsabilidade depois de exibir de forma bem explícita a cena com suicídio de Hannah, no final da primeira temporada, de onde vieram os questionamentos: pra quem passa por problemas, pra quem pensa em tirar a própria vida, isso não seria um incentivo, vamos dizer assim?

Pra mim, a série vai muito além do trágico ato de suicídio de Hannah Baker e definitivamente não é para quem passa por problemas psicológicos, não é um alerta para as vítimas e sim pra todos que estão ao redor e não prestam atenção ou muitas vezes acham que uma simples brincadeira não significa nada.

De forma bastante didática, o seriado transita entre assuntos absolutamente relevantes na sociedade atual, como bullying, assédio moral, assédio sexual, sexismo e negligência. Todos esses temas são repassados de forma bem intensa em cada uma das fitas que Hannah deixa para seus devidos responsáveis. É onde percebemos o peso das ações irresponsáveis de cada um, onde uma simples brincadeira de mal gosto pode afetar de forma caótica a vida de alguém. A gente nunca sabe como as pessoas vão receber nossas atitudes, é por isso que devemos pensar bem antes de agir, justamente para não atingir.

O que aprendemos com Hannah Baker e sua jornada na primeira temporada é que o suicídio não é algo para ser romantizado, não é inspirador. É algo sério, que envolve quem vai e quem fica, é um alerta que choca, que precisa chocar para que as pessoas se atentem a isso e procurem ajuda, quanto vítima, e procurem ajudar, quanto aos demais.

Tyler Down e o outro lado da história

Na segunda temporada, 13 Reasons Why trouxe a jornada ou redenção dos apontados nas fitas de Hannah Baker. É onde o peso na consciência chegou para quase todos eles e lidar com a culpa, não foi fácil. Eu achei interessante ver esse outro lado da história, muitas ações nem eram de fato o que Hannah tinha pensado que era e isso reforça mais ainda a ideia de que nunca sabemos como o outro vai reagir, então precisamos ter cuidado com as nossas atitudes.
A história agora passa a não ser sobre a Hannah, mas sobre todos os outros personagens e a gente acaba conhecendo mais sobre cada um deles, os problemas de cada um deles que envolviam de certa forma mais assuntos relevantes e isso seguiu pra mim, como mais um acerto da série.

Quero destacar aqui, Justin Foley, Jessica Davis, Alex Standall e Tyler Down. Quem assistiu a primeira temporada viu Justin deixando seu melhor amigo Bryce violentar sua namorada e certamente o odiou por isso. Ao longo da segunda e continuando na terceira temporada, a construção de Justin Foley é dolorosa. Criado em um lar abusivo e posteriormente convivendo com um amigo abusivo, Justin vivia a violência de forma cotidiana e presente. Pra piorar toda a sanidade mental do personagem, sua mãe era viciada em droga e seu padrasto era traficante. Justin sofreu agressões físicas, psicológicas e sua constituição familiar era um fracasso. Bryce foi uma das únicas pessoas que o apoiou, que de certa forma o recebeu como amigo, irmão por isso a dificuldade de Justin de lidar com a situação quando Bryce passou dos limites com sua namorada. Justin sofreu muito com tudo isso e teve que lidar sozinho, até a chegada da família do Clay que entra com um pedido de adoção para cuidar dele, no final da temporada.

A montanha russa na vida de Justin Foley é um acerto imenso da segunda temporada, que mostra a realidade de um jovem que sabe que precisa mudar, que quer mudar, mas parece que tudo vai contra ele. A trajetória de Justin é criada de forma brilhante, com recaídas e com superação, sucessivamente. Afinal, a vida não é fácil certo?

Jéssica Davis era uma garota popular, aparentemente feliz e descobrimos na segunda temporada que felicidade literalmente não era algo pra definir a vida dela. Jessica é complicada desde o começo e pra piorar o que já estava ruim, ela passa pela situação do abuso envolvendo Bryce e Justin. A segunda temporada é a jornada pra ela lidar com isso tudo, digerir e começar a superar, logo a garota que foi enfraquecida por toda essa situação começa a se transformar em uma mulher forte, começa a ganhar voz e a construir uma luta em nome de todos que já sofreram algum tipo de abuso. Essa trajetória cresce ainda mais na terceira temporada, vou falar mais sobre adiante.

Os caminhos de Jessica se esbarram com os de Alex, eles se aproximam bastante, porém Alex acabou se punindo demais carregando muito a culpa da morte de Hannah e tentando resolver isso da pior forma possível: ele tirar a própria vida, porém sobreviveu.

Alex foi um erro na minha opinião, um suicídio gerando outro, me pareceu forçado demais. O peso que Alex resolveu carregar não condizia muito com a personalidade do personagem e isso seguiu adiante com as atitudes dele na terceira temporada.

Mais pro final da temporada, temos uma outra vítima: Tyler Down. Ele foi na minha opinião um dos maiores personagens na série, o que mais se redimiu pós Hannah Baker e o que possivelmente acabou pagando muito caro pelas incertezas alheias. Tyler foi vítima de bullying pesado e perseguido por tirar fotos das pessoas da escola, ele foi interpretado de forma muito injusta. O sofrimento constante do personagem foi pra mim um acerto de 13 Reasons Why, voltando novamente do peso das ações que não sabemos como serão interpretadas.

Por causa dessa perseguição, Tyler paga o preço da insegurança de outro personagem, Monty, e só descobrimos o porquê na terceira temporada. Monty abusa de Tyler sexualmente de forma extremamente violenta e os rastros disso a gente vê no final da temporada quando Tyler, psicologicamente perturbado, quase atira em toda a escola durante o baile de final de ano.

É o tipo de coisa que acontece com uma frequência assustadora, principalmente nas escolas americanas: jovens que planejam massacres em escolas, porque são abusados, são mal interpretados, e por aí vai. O choque da cena do abuso de Tyler, é justamente pra gente tentar ver o quanto esses jovens não são loucos ou apenas assassinos desgovernados, eles passam por coisas terríveis, eles precisam de ajuda. Tyler Down é realidade e a gente precisa digerir isso para aprender a lidar.

Quem matou Bryce Walker? 

A terceira temporada chegou jogando na cara do público o assassinato de Bryce Walker, aquele que saiu impune de várias acusações de estupro na segunda temporada.

Quando a segunda temporada acabou tínhamos então os conflitos internos de Tyler que quase massacrou a escola inteira e Bryce saindo livre depois de violentar várias meninas e não pagar nada por isso. Mas e aí, precisávamos mesmo de uma terceira temporada?

Bryce Walker não pagar pelos crimes que cometeu nada mais é do que a realidade do garoto branco, bonito, rico, atleta destaque da escola. Infelizmente é esse o padrão da sociedade machista que a gente vive e deixar isso no ar, com aquela raiva no público da falta de punição pra ele, soaria mais urgente e eficaz do que explicar posteriormente que Bryce podia se arrepender e virar um coitado diante dos nossos olhos.

Ver a trajetória de arrependimento e culpa de Bryce Walker foi desnecessário e a morte dele mais desnecessária ainda, principalmente pela forma que foi. Ok, pessoas se arrependem, pessoas mudam, porém se tivessem deixado a liberdade dele em aberto mostraria o quanto isso é um erro da justiça, da sociedade. Colocar ele arrependido depois nos leva a crer que todos se arrependem – o que sabemos que isso jamais será verdade e que mesmo arrependidos os estupradores precisam pagar pelos seus atos.

Alex Standall, aquele que não suportou ouvir a fita de Hannah e tentou se matar, foi quem tirou  a vida de Bryce da forma mais idiota possível e aparentemente parecia conviver tranquilamente com isso depois, mesmo vendo seus amigos sendo acusados pela morte de Bryce. Percebem a incoerência na linha de construção do Alex? Não vejo sentido algum nas atitudes dele diante da personalidade do personagem.

Com uma narrativa fria e seca de uma nova personagem, Ani, que do nada chegou e já sabia de tudo e todos, a terceira temporada foi arrastada e o maior erro de 13 Reasons Why. Sem muito um ‘porque’ e um objetivo, enrolar os 13 episódios só para revelar quem matou Bryce Walker distanciou bastante das temporadas anteriores com propósitos mais relevantes.

O crescimento, eu diria, a revitalização de Tyler Dwon foi a única coisa significante nessa temporada. O esforço dele pra se manter e seguir em frente, depois dos acontecimentos da segunda temporada foi gratificante e importante de ver, mas vamos combinar dava pra resumir isso de forma bem objetiva em alguns episódios a mais na segunda temporada.

13 Reasons Why se perde na sua própria jornada, se estende demais e fica sem foco nessa terceira temporada. Não bastasse isso, ao que tudo indica teremos uma quarta. A gente podia ter ficado só na primeira, no máximo na segunda, que estava ótimo.

E pra finalizar esse episódio, saiba que tirar a própria vida, segundo OMS, já é a segunda principal causa de morte em todo mundo para pessoas de 15 a 29 anos de idade. Se você está passando por algum problema e precisa de ajuda, lembre-se de que você não está sozinho!

Centro de Valorização da Vida
www.cvv.org.br

Associação Brasileira de Estudos e Prevenção de Suicídio – ABEPS
www.abeps.org.br/

Ministério da Saúde Prevenção do Suicídio
www.saude.gov.br/saude-de-a-z/suicidio

UNILAB Prevenção do Suicídio
www.unilab.edu.br/prevencao-do-suicidio/