PapoSério #01 – Precisamos de uma Ariel negra?

Para o nosso primeiro #PapoSério aqui no Megazord, resolvi levantar o debate sobre um assunto que dividiu opiniões na internet nas últimas semanas: a Disney anunciou um live action do clássico ‘A Pequena Sereia’ e que a Ariel será interpretada pela atriz Halle Bailey, que é negra. 

Eu pessoalmente nem entraria nesse debate porque ‘A Pequena Sereia’ é pra mim um das piores histórias da Disney, eu já começaria em nem pensando em live action desse desenho. Como o debate foi levantado e o assunto rendeu nas redes, resolvi trazer pra cá com a minha opinião que de certa forma não é a favor da Ariel ser interpretada por uma atriz negra, mas calma, eu vou explicar o porquê e onde exatamente eu acho que a Disney podia de fato investir, quando o assunto é diversidade.

Porque não novas histórias?

Eu começaria com a pergunta, para uma mulher negra: você sinceramente queria ser uma princesa ‘remake’ da Disney? Nós mulheres vivemos cada vez mais a geração de luta, do feminismo, de força, não queremos ser princesas. Queremos igualdade, reconhecimento, somos capazes de fazer a diferença. O que seria mais representativo: recriar um personagem já existente, com outra cor de pele ou criar novas histórias com personagens negros? Com histórias diferentes que conto de fadas? Com causas mais importantes e relevantes?   

‘Moana’ e ‘Valente’, que são criações do grupo Disney, são exemplos preciosos de que não precisamos mais de princesas, de príncipe, de toda essa fantasia disfarçadamente machista. São filmes com personagens totalmente representativas, inclusive a Moana é negra, com histórias incríveis e inspiradores, que valem muito mais do que transformar uma sereia branca e ruiva, em negra.

Sou a favor de que criem personagens negras, ruivas, brancas, gays, personagens diversos. Que alcancem todas as classes, todos os grupos, todas as causas. Eu quero é novos espaços, não quero que as meninas negras se sintam felizes por verem uma Ariel com a mesma cor de pele que elas, eu quero que elas sejam a inspiração e a motivação para novas histórias.

Descaracterização 

Falando de um ponto de vista mais técnico vamos dizer assim, eu não sou muito a favor de descaracterização de personagens que já existem, logo eu não vejo porque uma Ariel negra, nem loira, nem de cabelo curto, diferente da personagem originalmente criada e isso vale para qualquer personagem. Do mesmo jeito que não acho viável uma personagem branca, interpretar uma negra, uma americana interpreta uma japonesa, não tem nada a ver uma negra representar uma ruiva. Se não queremos a descaracterização de um lado, não podemos forçar do outro só pra parecer representatividade.   

Imaginem se o Aladin, aquele original do desenho, fosse interpretado sei lá pelo Zac Efron e não por um ator com descendência indiana? Pois é, ia ficar descaracterizado, assim que eu vejo a situação da Halle Bailey como Ariel. 

Sereias não tem etnia

Vale lembrar também, que um dos pontos discutidos na internet é que sereia não tem raça, não tem etnia, é um personagem totalmente fictício e pode ser de qualquer cor. E sim, isso é verdade, a própria história da Ariel já apresentou uma sereia negra antes, a Gabriella, que apareceu na série de desenho de ‘A Pequena Sereia’ para a televisão, em 1992. A personagem se inspirou na Ariel e mais importante, inclusivo ainda, ela era  era surda e utilizava a língua de sinais para se comunicar com a ajuda de Ollie, o polvo, seu amigo e tradutor.       

Se é representatividade que a Disney quer, porque então não dá continuidade a história de Gabriella em busca dos seus sonhos? Em protagonizar ela como referência de luta e inspiração, em vez da Ariel? 

Eu imagino que vocês já entenderam o meu ponto de vista em ‘discordar’ de certa forma, da Ariel negra e de fato pensar em igualdade, representatividade de forma significativa.

Então, o filme vai ficar ruim?


Não, claro que não. A questão não é essa e sim, qual a necessidade da desconstrução se podemos construir muito mais? No meu ponto de vista visual do filme, por mais que citei a descaracterização, não vai afetar em ser bom ou ruim.

Representatividade e inspiração precisam vir em formas de novas histórias e novos personagens. Novos cenários. O que as mulheres negras querem ser? De que forma elas querem inspirar e se sentirem representadas na sociedade? Eu sou capaz de apostar, que não é sendo uma sereia ‘recriada’ ou  ‘refeita’ só para agradar, afinal todos nós sabemos que a personagem original não é assim. 

Não me incomoda a Ariel negra, o que me incomoda é a forma fácil do público de aceitar ‘qualquer coisa’ fácil como representatividade, sendo que a Disney pode ir muito mais além, com uma voz muito mais forte. Precisamos de mais Gabriellas, mais Moanas e não uma Ariel para cada etnia ou cor de pele.